Murmúrio
Não vejo propósito algum na vida. Não acredito em deuses ou renascimentos. Não acredito em valores intrínsecos.
Essa perspectiva não me tirou a beleza de ter experiências emocionantes e tocantes, de rir e chorar, de ter empatia pelo próximo e de encontrar o prazer em coisas simples.
Não acredito na dualidade de bom e mau, certo e errado, corpo e alma, razão e emoção.
Não vivo na esperança de um mundo melhor.
Acredito no que sinto e experimento agora sem precipitar-me no abismo das conclusões e respostas. A complexidade, a metamorfose e a dúvida fazem parte da minha vida.
“Aquele que combate monstros deve tomar cuidado para que ele mesmo não se torne um. E, se olhar muito tempo para o abismo, o abismo te encara de volta.” - Friedrich Nietzsche
Quando vejo alguns ateus militantes lutando contra a religião e todo o lixo que ela descarrega na sociedade percebo que alguns deles já se tornaram monstros semelhantes aos que eles lutam contra. Se tornam tão religiosos quanto os demais. Trocam o culto às divindades espirituais por divindades terrenas e ideológicas.
O abismo se torna ainda maior perante os outros.
Não proponho passividade às mazelas que as religiões e fanatismos possam gerar para a sociedade mas também creio que responder na mesma moeda tornam-os semelhantes com o tempo. Se submetem à mesma prática e acabam participando do mesmo jogo.
Em outro momento falei sobre não gostar de sair em bando, mas creio que generalizei sem destacar o que realmente me incomoda.
O que me desagrada não é o fato de estar em grupo mas as pessoas que não estão realmente presentes e com um laço de empatia com as demais. Apenas comparecem fisicamente aos lugares sem estarem interessadas nos demais. Vão aos lugares mas não entram em contato aprofundado com o grupo. Pessoas que não cooperam. Pessoas que saem para competir sobre quem fez algo "melhor" ou tem algo "melhor". Pessoas que saem para falar mal dos outros e rirem da desgraça alheia. Pessoas que saem para esquecer seus problemas ou ficarem reclamando e não para compartilhá-los e procurar resolvê-los. Pessoas que fogem de si mesmas. Pessoas que buscam o consentimento e acobertamento do grupo para julgar os demais.
É uma pena necessitarmos, ou acreditarmos que necessitamos, de punição e recompensa de alguma autoridade para a prática da moral e da empatia. Crescemos numa sociedade onde há o uso de medo e controle para cooperarmos e vivermos em comunidade.
Não entendo a graça de sair em bando e ficar ouvindo a tagarelice das pessoas, despejando uma por cima das outras seus pensamentos e desejos, sem mesmo ouvir com atenção o que as outras tem a dizer. Não querem estar sozinhas mas pouco se importam com os outros. Querem apenas audiência para vomitar suas bobagens e evitar o silêncio. Medo de si mesmas, da solidão.
Por vezes levo-me muito a sério, sinto-me compelido a querer manter-me coerente e explicar-me. Porra, isto já é insanidade, penso eu. E assim escrevo agora.
Melhor viver, sentir, tentar e se contradizer sem querer dar explicações. Fazer aquilo que parece ser interessante no momento e libertar-se de ideias aprisionadas. Preocupar-se é fraqueza.
Só se preocupa aquele que quer manter artificalmente uma imagem e exaltá-la em busca de alguém que a admire e quem sabe a cultue, talvez ele próprio. Insano.
Não sou permanente. Sou algo que flui sem qualquer destino certo.
Querer agradar a todos e a todo momento é desespero. Saber negar é necessário. É honesto. Demonstra que quando fizermos algo é por vontade própria e com atenção.
Torna-se mais difícil que o normal confiar em alguém que não expressa suas vontades e prioridades.
Algumas pessoas acreditam que a esperança é uma virtude, creio que seja apenas um pesadelo disfarçado de sonho encantado. Um sentimento amaldiçoador.
É um propulsor de ansiedade que nos faz viver angustiadamente um amanhã projetado em um presente atormentador.
Descobrimos a falta de sentido da vida e admitir isso torna-se um fardo, então vivemos de esperanças, como se algo em algum momento fosse preencher o vazio da existência.
Abrimos mão de saborearmos algum contentamento presente em troca de uma ilusão que nunca irá nos satisfazer.
Desejar mais do que se possa alcançar nesse momento é garantia de insatisfação. O desejo não tem fim.
Melhor seria esperar menos, sonhar menos.
Satisfazer-nos com o que pudermos, aqui e agora.