Os lobos por Derek Lin

Mestre, preciso de sua ajuda. Eu não sei mais o que fazer.

O que lhe parece ser o problema? perguntou o sábio.

Estou tendo muita dificuldade em controlar minha raiva, disse o visitante. É  o jeito que as pessoas são. Eu as vejo criticando os outros enquanto estão totalmente cegos para seus próprios defeitos. Eu não quero criticá-los para não ser como eles, mas isto realmente me irrita.

Eu compreendo, disse o sábio.  Mas diga-me uma coisa primeiro. Não foi você que escapou por pouco da morte no ano passado?

Sim, confirmou o visitante. Foi uma experiência terrível. Eu me aventurei muito longe na floresta, e fui cercado por um bando de lobos esfomeados.

E o que você fez?

Eu subi numa árvore quando eles estavam correndo em minha direção. Eram lobos grandes, e eu não tenho nenhuma dúvida de que me poderiam me fazer em pedaços.

Então, você ficou preso?

Sim. Eu sabia que não poderia ficar lá por muito tempo, sem água e sem comida, e ficava esperando que eles diminuíssem sua atenção. Quando percebia que seria seguro, eu pulava até o chão e corria como um louco até a próxima árvore, e subia de novo.

Parece que foi uma provação muito difícil.

Sim - durou dois dias. Eu pensei que fosse morrer. Por sorte, um grupo de caçadores se aproximou, depois que eu cheguei um pouco mais perto da vila. Os lobos se espalharam e eu me salvei.

Estou curioso sobre uma coisa, disse o sábio. Durante sua experiência, você se sentiu ofendido pelos lobos?

Como? Ofendido?

Sim. Você se sentiu ofendido ou insultado pelos lobos?

Claro que não, Mestre. Este pensamento nuca me passou pela cabeça.

Como não? Eles queriam morde-lo, não queriam? Eles queriam matá-lo, não queriam?

Sim, mas... isto é o que os lobos fazem! Eles estavam sendo conforme sua natureza. Seria um absurdo que eu encarasse isso como uma ofensa.

Ótimo! Agora vamos conservar este pensamento enquanto examinamos sua pergunta. Criticar os outros enquanto permanecem cegos para os próprios defeitos é uma coisa que muitas pessoas fazem. Pode-se até dizer que é uma coisa que todos nos fazemos de vez em quando. De uma certa forma, é um lobo voraz que vive em cada um de nos. 

Quando os lobos mostram suas presas e o ameaçam, não se deve ficar parado. Você certamente deve proteger-se fugindo deles tanto quanto possível. Da mesma forma, quando as pessoas o perturbarem com criticas maldosas, você não deve aceitar isso passivamente. Você deve proteger-se, distanciando-se o quanto possível.

O aspecto crucial é que que isto deve ser feito sem que se sinta ofendido ou insultado, por que essas pessoas estão apenas sendo elas mesmas. É da natureza delas serem críticas e cheia de julgamentos, de modo que seria um absurdo ficarmos ofendidos, e seria inútil ficarmos bravos.

A próxima vez que os lobos esfomeados na pele de homens correrem atrás de você, lembre-se: é  o jeito que as pessoas são - exatamente como você disse assim que chegou.

Fonte: http://www.taoism.net/br/stories/wolvesbr.html

A verdade não vos libertará

A verdade não liberta. Nos achamos uma espécie especial acreditando que o conhecimento nos levará a algo libertador. Nada na história nos mostra isso.

A própria ciência é um conjunto de crenças justificadas muitas vezes apreciada como uma fé salvadora que nos guiará e nos libertará da vida de dúvidas e sem sentido. Essa fé é o desespero de querermos ser algo além do que somos, de alcançar um estado que não passa de imaginação. Uma herança da religião de procurar algo que nos guie e nos dê um propósito maior.

Como escreveu John Gray: "É uma estranha fantasia supor que a ciência possa tornar racional um mundo irracional".

Ela pode apenas dar uma nova aparência, assim como muitas religiões, às nossas loucuras e vidas animalescas.

Defecando textos

Mal consigo desenvolver um assunto racionalizando alguma questão da vida em um texto longo o suficiente para entreter aquele que o lê. Se escrevo muito é capaz de me perder e me entediar. 

Escrevo apenas pra brincar com esses pensamentos que trafegam em minha mente como que lançando-os num mar de letras até que as ondas o tragam de volta e eu canse de recolhê-los e permita-os afogarem em paz.

Não quero respostas e as questões me divertem ao mesmo tempo que me entediam.

Viajante Nômade

Não penso e faço questionamentos esperando que esse caminho me leve a um destino certo e seguro. Na verdade, não penso por escolha, mas ao pensar sinto-me não pertencer a lugar algum, não tendo qualquer pretensão de saber onde isso me levará. Sou viajante nômade.

Natural e Artificial

As cidades são tão artificiais quanto colméias. A Internet é tão natural quanto uma teia de aranha. Como escreveram Margulis e Sagan, nós próprios somos artifícios tecnológicos inventados por antigas comunidades de bactérias como forma de sobrevivência genética: "Somos uma parta numa intrincada rede que vem desde a tomada original da Terra pelas bactérias. Nossos poderes e inteligência não pertencem especificamente a nós, mas a toda a vida."

Pensar nossos corpos como naturais e nossas tecnologias como artificiais confere importância excessiva ao acidente de nossas origens. Se formos substituídos por máquinas, isso constituirá uma mudança evolutiva em nada diferente daquela em que bactérias se combinaram para criar nossos primeiros ancestrais.

Trecho do livro "Cachorros de Palha - Reflexões sobre humanos e outros animais". Autor: John Gray.

Emoção ante o abismo

Não vejo propósito algum na vida. Não acredito em deuses ou renascimentos. Não acredito em valores intrínsecos.

Essa perspectiva não me tirou a beleza de ter experiências emocionantes e tocantes, de rir e chorar, de ter empatia pelo próximo e de encontrar o prazer em coisas simples.

Não acredito na dualidade de bom e mau, certo e errado, corpo e alma, razão e emoção.
Não vivo na esperança de um mundo melhor.

Acredito no que sinto e experimento agora sem precipitar-me no abismo das conclusões e respostas. A complexidade, a metamorfose e a dúvida fazem parte da minha vida.

 

A luta com monstros

Aquele que combate monstros deve tomar cuidado para que ele mesmo não se torne um. E, se olhar muito tempo para o abismo, o abismo te encara de volta.” - Friedrich Nietzsche

Quando vejo alguns ateus militantes lutando contra a religião e todo o lixo que ela descarrega na sociedade percebo que alguns deles já se tornaram monstros semelhantes aos que eles lutam contra. Se tornam tão religiosos quanto os demais. Trocam o culto às divindades espirituais por divindades terrenas e ideológicas.

O abismo se torna ainda maior perante os outros.

Não proponho passividade às mazelas que as religiões e fanatismos possam gerar para a sociedade mas também creio que responder na mesma moeda tornam-os semelhantes com o tempo. Se submetem à mesma prática e acabam participando do mesmo jogo.