Ponto de ônibus

Ela estava sentada em um banco do ponto de ônibus. Debruçada em suas pernas ela chorava. Ele a avistou de dentro do ônibus, encostado na porta, olhando pelo vidro. Jamais saberá o motivo das lágrimas dessa menina. Poderia ser o término de um namoro, a morte de um parente, ou qualquer outra coisa. O que ele sabe é que a tristeza que estava no semblante dela doeu em sua alma. Talvez um abraço a confortaria. Talvez, talvez, talvez. O ônibus andou. Como em câmera lenta ele a olhava mas a perdia de vista. Ela se foi. A cena não. Essa ficou em sua mente.

Lixo mental

Com sua velha máquina de escrever despejava letra a letra o que estava armazenado em seu lixo mental. A bebida, essa era apenas uma companheira que o auxiliava na drenagem dessa podridão. Ele dava um gole, largava a garrafa e a encarava. No fundo sempre parecia que ela lhe dizia algo. Ele nunca soube se isso era ilusão ou se seus sentidos se tornavam mais apurados com o álcool. Ele era um inútil pra sociedade. Aliás, pouco se importava em ser mais que isso. Um vagabundo que amava a vida ao seu próprio modo.

Preguiça

Hoje estou com ela. Ficar deitado assistindo filme ou ouvindo música ao seu lado é prazeroso nesses dias de frio. As noites acabam na cama, dormindo juntos. Ela se chama preguiça e não me troca por nada.

Guerra do sono

Acordo como se tivesse ido dormir forçado pelo meu corpo. Desde o fim da tarde a cama não me largou, como um monstro controlador. Cheguei a abrir os olhos algumas vezes na intenção de acordar e levantar mas isso não me foi permitido. Era só o tempo de olhar pro lado e desmaiar em seguida. Foi me tirado o poder de decisão durante esses breves tempos de consciência. Agora, aqui firme e forte, declaro que consegui. Levantarei com o sentimento de quem venceu uma guerra.

Dia frio

O dia estava frio; as ruas desertas; o céu cinzento; a cama quente. No escuro, deitado, ele podia ver a sua vida com mais clareza. Ouvia sua própria respiração. Inspirava o vazio. Expirava o nada. Os pensamentos tomavam seu próprio rumo. Deixavam-lhe finalmente em paz. Agradecido, adormeceu.

Batendo o pé

O sinal de pedestres mostrava a cor vermelha. Não atravesse, ele dizia. Eu esperava parado na calçada. Ao lado, uma senhora e uma criança, uma pequena menina. Eu olhava os carros passarem correndo enquanto uma música tocava nos meus fones de ouvido. Marco o ritmo do som batendo um dos pés. Olho pro lado. A menininha está me imitando, batendo um dos pezinhos e me olhando. Olho-a nos olhos. Sorrio pra ela. Ela sorri de volta, envergonhada, e se esconde atrás da senhora. O sinal fica verde. Eu atravesso a rua.

Levantar pela manhã

Levantar pela manhã era difícil. A motivação pra sair da cama quase nunca lhe vinha. Nessa manhã foi diferente. Algo lhe lembrou ela. Deu uma chance para sentir aquilo. Sorriu. Acreditou ser algo novo. Bocejou. Levantou. Foi ao banheiro e lavou o rosto com água fria. A ilusão escorreu pela pia. A realidade refletiu no espelho. Percebeu que tudo aquilo era apenas um sentimento de merda plantado em sua mente. Voltou para cama e desmaiou.

Poço vazio

Drenou a tristeza mas o que sobrou foi um poço seco e vazio. Silêncio. Grito. Eco. Desespero.

Anestesiados

Na avenida, as calçadas repletas de pessoas na correria, a rua cheia de carros querendo passar uns por cima dos outros. Muita gente mas ninguém se vê. Os outros estão invisíveis. O palhaço tocando um instrumento curioso no sinal quase não é percebido. O artista parado na calçada com sua performance de estátua viva nem é reparado. A moça aos prantos encostada no muro é engolida pela pressa de todos. Onde todos estão com as cabeças? Seus corpos estão pra lá e para cá como num piloto automático cumprindo tarefas e pensando em algum outro momento que os privam do presente. Estão anestesiados. Nem a si mesmos devem sentir mais. Essa droga ingerida pelas mentes deles eu não quero para mim. Foda-se que realidade criaram para si, quero outra.

Tentativa de esquecimento

Faz de tudo pra esquecê-la, só que tudo lhe lembra ela.
Ao beijar outra boca, é do gosto da boca molhada dela que se lembra.
Ao tentar embriagar-se, é por ela que chora.
Ao desviar-se do telefone pra não ligar, é a voz dela lhe falando ‘oi amor’ que ouve.
Ao fechar os olhos para nada ver, é ela que lhe aparece.
Ao tampar os ouvidos, ela chama pelo seu nome.
Ele dorme. Ela está em seus sonhos.