Todas as estradas

Todas as estradas parecem levar para o mesmo lugar, mas aquele lugar não é mais o mesmo. Não há mais quem o espere. Ele tenta dar meia volta, mas sabe que uma hora ou outra lá estará ele de novo. Então ele se prostra no meio do caminho. Seus joelhos se dobram sobre um velho chão. Abaixa a cabeça. Aquilo que queria dizer há muito tempo agora escorre pelo seu rosto. As lágrimas escrevem no barro os poucos versos que ainda conseguem ser ditos.

Borrão artístico

Estava sentado. Bebia sozinho. Mais um gole e o copo se tornara vazio. Sua mente também. As pessoas em movimento formavam um borrão artístico em sua visão distorcida. Assim até que elas tinham alguma graça.

Ele e a solidão

Um carinho. Um afago. Um beijo. Um abraço. Olhou em volta e não tinha quem oferecesse. Avistou a solidão e lhe deu a mão. — Aperte bem. Daqui pra frente seremos eu e você.

Massa grudenta e fétida

Quanto mais gente à sua volta mais ele se via sozinho. As pessoas se tornavam uma massa grudenta e fétida. Tudo o que queria era escapar dali e ter apenas sua própria companhia.

Agitado

Agitado, andava pra lá e pra cá. Parou e percebeu que o tumulto não estava tanto do lado de fora, mas do lado de dentro — Pensamentos, que diabos eles estão me dizendo? Cansei de despejarem merdas em minha mente. Deixem-me em paz, sozinho.

Menina apressada

Não é a primeira e nem a segunda vez que a vê. Ela costuma andar às pressas. Parece ser o tipo de mulher que quando tem um alvo o persegue sem distrações. Tem uma beleza natural. Cabelos castanhos e lisos. Nesse dia eles estavam soltos ao vento. Pele branca. Unhas comidas. Deve ser o estresse. Ele a viu parada. Ela parecia esperar por algo. Não usava batom. Ele passou por ela e distraidamente esbarrou em seu braço. Olhou para ela e pediu desculpas. Ela o olhou de volta com um sorriso e em baixa voz disse: Imagina!

Ele ficou atordoado. Há quanto tempo uma voz delicada não estremecia o seu coração? E o sorriso? Ah, o sorriso era como uma rara obra de arte. Depois desse dia ele só a viu de longe.

A saudade chegou

A saudade chegou. Bateu na porta, surrou. Não foi convidada. O lugar dela era longe dali. Eu disse pra ir embora. Ela entrou, tinha a chave. Me intimidou a pegar o telefone e discar. Ela sabia que eu ainda tinha o número. Alguém atenderia do outro lado. Ela queria me destruir, escancarar meu momento de fragilidade. Apontou a arma para a minha cabeça. Ameaçou atirar lembranças. Ela sabia o que fazia. Queria me ferir. Tive medo. Pensei em me render. Respirei fundo. Olhei pra ela como quem encara o abismo, mas com coragem. Caia fora! Enxotei-a com um pé na bunda. Aqui não é seu lugar. Filha da puta.

Cercado por pensamentos

Cercado por todos os lados. Mesmo ao ar livre, ainda lá estão os pensamentos que o cercam. Afrontam, maltratam. Quanto mais tenta não pensar, mais pensamentos lhe atormentam. Desiste. Senta. Escuridão. Lentamente observa sua respiração. Fica ali por algum tempo, sem pressa, sem tempo. E aos poucos os pensamentos se vão, respeitam a vacuidade, o sagrado nada.

Pequeno buda

Meu felino ali deitado mesmo sem poder se comunicar na mesma língua que eu me dizia que era hora de largar mão e dizer foda-se pra lavar a alma. A mensagem mereceu reflexão. Ele sabe o que diz. Passa o dia inteiro em meditação, meu pequeno buda. Ele sabe o que diz. O pequeno buda pode estar em qualquer lugar. Minha mente o cria. O Wilson, minha bola, meu amigo, me chama, e quando o olho, ele é o buda. Foda-se. Alma lavada.

Teatro, hoje não

Pensou em ir ao teatro. Resolveu pesquisar como chegar ao destino. Cálculo de rota: 1:10h. Transporte público. Afinal, carro é um enlatado que abriu mão de ter há anos. Percebeu que não estava motivado o suficiente para esse deslocamento de ida e volta. Ele teria a companhia de seus livros e de suas músicas no trajeto, mas ele pensou, sim, ele pensou: bebi na noite passada, tonteei, vi o mundo em câmera lenta, dormi em horário fora da rotina, acordei tão cansado quanto quando fui dormir, apesar de menos tonto. Olho aquelas nuvens negras no céu e sei o que elas planejam. Estão me esperando sair para desabar sobre minha cabeça. Olho pra mim. Meu corpo pede calma, pede cama. Pede menos e reclama.