Cárcere privado

O sentimento brotou daquele coração que mais parecia uma rocha. Na verdade era como uma grande prisão. Sair dela seria difícil mas o diretor de tudo isso era ele mesmo, poderia se absolver, abrir a porta e se livrar quando bem entendesse.

Gostava do seu cubículo, onde o silêncio e a solidão não lhe deixavam na mão.

De tempo em tempo saía de sua cela mental para um banho de sol, momento em que se permitia alguma emoção, rápida e controlada. Fazia isso para se manter vivo.

Sair do seu mundo interior cercado por muros e grades não era uma opção. O lado de fora era arriscado demais.

O sentimento brotou mesmo estando em seu cárcere privado.

As coisas se repetem

Chega às oito, almoça ao meio dia, volta às treze e ao marcar dezessete horas no relógio se levanta e segue o rumo pra casa. Chega em casa às 18:30. Toma um banho. Dá um beijo na esposa. Está cansado, o ônibus estava cheio, pessoas reclamando, pessoas suando, pessoas não lhe interessam, não naquele momento, e talvez em nenhum outro.

A esposa quer conversar. Ele quer ficar quieto. Ela quer assistir TV. Ele quer ler. Ela quer dormir. Ele quer morrer.

Acorda na manhã seguinte, a vida continua, as coisas se repetem.

Prato de merda

Naquela noite o sono não lhe veio. Deitou, rolou, suspirou, sentou, levantou. Pegou um cigarro. Foi pra varanda da casa de um ponto onde a vista pra lua era possível. Olhou o pequeno banco no sereno. Deitou no chão. Acendeu o cigarro. Começou a imaginar formas com as estrelas que podia ver tão vividamente no céu.

Lembrou do dia em que estava em silêncio, era uma segunda-feira, após saber que perdera o emprego, quando Paulo tentou balbuciar algumas palavras de consolo, “a vida nos dá oportunidades que…”. Paulo, foda-se a vida. Um prato de merda comido quente e com o fedor que nos ardem os olhos. Fodam-se as oportunidades. Baboseira pensar que temos controle sobre algo, que agora as coisas podem ser melhores. As coisas são, as coisas acontecem, basta. Deu dois passos, entrou no elevador, apertou o térreo. Desceu, desapareceu.

Vitrô da cozinha

Ele estava sentado em uma cadeira da sala de jantar, daquelas que ao mínimo movimento fazem um barulho estranho. Estava concentrado em seu computador sobre a mesa da sala. Uma mesa de vidro onde acabara de jantar. Ele ouvia gritos e “filho da puta” em alto e bom som vindo de fora de algum local não tão perto, mas não tão longe. Levantou. Foi ao vitrô da cozinha. Olhou para uma das ruas onde a vista era possível. Uma viatura da polícia pôde ser avistada. Policiais saindo do carro. Mulher histérica gritando: “você me chamou de vagabunda” a alguma pessoa, por certo um homem, invisível ao olhar dele.

A distração da noite aconteceu para ele. É verdade que para ele quando o silêncio é roubado bruscamente, especialmente com gritos finos e histéricos, não é uma troca justa mas ao menos algo diferente aconteceu e o entreteu. Ele não pudera saber quase nada sobre o acontecimento mas pouco importava como se desenrolou. O calor o incomodava naquela noite. Ele abriu a geladeira, pegou a garrafa de água e encheu seu copo. Bebeu, riu e pouco se fodeu.