Morte e suicídio

Para fazer valer a luta diária em se manter vivo é necessário alguma dose de prazer e satisfação. Não quer dizer que isto já pague o esforço, mas ameniza a dor.
Bem, mas no fundo, em geral basta o instinto de auto-preservação para manter todos vivos.
A morte é evitada mesmo sabendo que ela nos traz a premiação tão almejada: livramento do sofrimento e do tédio. Se a vida exige esforço, a morte não exige nada.
Não há o que se ganhar com a vida. Não levamos nada. O fim é igual para todos.
Em contrapartida, adiar este momento e brincar um pouco faz parte do jogo para a grande maioria.

Há algumas pessoas que perdem a habilidade de alcançar prazer e vencem o instinto. Optam pelo fim da vida de maneira direta e instantânea.

Existem casos em que a desistência de viver ocorre por alguma decepção momentânea, uma distorção dos fatos. Bastaria deixar a poeira baixar para o desespero crônico passar e conseguir seguir a vida normalmente. Infelizmente, no meio de uma crise, nem todos conseguem perceber que aquilo é passageiro.

Contudo, há estado de espírito de certa constância, onde não é um caso de distorção ou falta de percepção, e sim um apego aos fatos nu e cru da realidade. A falta de sentido escancarada o tempo todo na cara sem permitir qualquer devaneio.
É possível que algumas drogas possam mudar este estado mental e permitir que prossigam com suas vidas mas isto só seria vantagem se a própria pessoa considerasse assim.
As pessoas criticam o suicídio pela dor que causam a elas e à sociedade. Estão pensando em si mesmas, e não naquele corpo que preferiu parar de respirar. Ele encontrou sua paz, e elas o seu tormento.
Difícil aceitarem que ficarão nesta luta non-sense sozinhas e aceitar que o outro desistiu da luta. Se é pra sofrer, que soframos juntos, pensam.

Não dão o direito de alguém se abster da vida de forma planejada. Algumas religiões até buscam uma forma de punir os suicidas no além-mundo fantasioso.
Com esta ideia nem os anciãos à beira da morte poderiam desejar morrer. Teriam sempre que lutar pela vida, desejá-la. E não é bem assim. Com seu corpo debilitado e sua mente cansada, já desejam o sossego eterno. Deveríamos insistir a eles que desejem ainda mais a vida? Puní-los pelo desânimo em viver?

Quem pode afinal estabeler os limites para escolher a vida ou a morte senão a própria pessoa?

Viver é uma arte, escrita com pena cheia de sangue.

O sentido da vida

A quietação de ânimo, se possível, não parece estar na procura de algum sentido para a vida mas no desapego desta ideia.

A esperança no futuro

A esperança no futuro é uma das causas de tanta ansiedade e estresse do presente.
As pessoas não aceitam sua condição, sua natureza. Querem um paraíso, querem a imortalidade, querem estar livres do sofrimento.

Esperam a salvação de si mesmas na religião e na ciência. Esquecem-se quem são em troca de alguma utopia.
Somos e seremos para sempre meros animais. Aglomerado de átomos.

O tédio e a aflição fazem parte de nossa natureza.
Em vez de tentar manipular e iludir a consciência, é necessário usá-la a nosso favor, aceitar o que somos, evitando desgastes que não mudarão nossa condição.
Fazer menos. Nos esforçar menos. Nos preocupar menos. Sem pressa. Mais devagar. O fim sempre chega.

Self, eu, ninguém

Temos uma grande tendência em buscar coerência em todas as nossas ideias já transmitidas.

Tememos perder crédito com os demais ao mudarmos de opinião ou revelar qualquer metamorfose.
Buscamos uma permanência em nossa própria imagem.
Queremos defender pontos de vista.
Almejamos vencer debates, ter os melhores argumentos.
Amamos estar “certos”.

Esquecemo-nos de que o “eu” é ilusório. Não existe uma essência permanente. Defendemos algo vazio.
Somos uma coleção de diversos pensamentos e ações gravados numa memória, que vez ou outra adorna o passado com elementos inexistentes ou distorcidos.
A cada momento nasce um novo “eu”, a cada papel empregado na vida brota uma nova identidade.
Surgimos numa sucessão de compilações mutáveis.

Quando podemos nos deprender um pouco desta sensação de sermos uma personalidade independente imutável e de defender uma imagem estática fantasiosa, deixamos um esforço inútil de lado.
A cabine do piloto está vazia. Relaxe e aproveite a viagem.