Sobre amor e paixão

Trecho encontrado em: http://www.portalcafebrasil.com.br/podcasts/368-sobre-amor-e-paixao

Escrevi uma história sobre isso. A Menina era apaixonada pelo Pássaro Encantado. Mas ela sofria porque o Pássaro era livre, O Pássaro Encantado era sempre uma ausência que se demorava, uma despedida pronta a cumprir-se. O Pássaro lhe disse que era preciso que fosse assim, para que eles continuassem apaixonados. Ele sabia que a paixão não ama pássaros em vôo. Mas a Menina não acreditou. Prendeu-o numa gaiola.

Gaiola? Há as feitas com ferro e cadeados. Mas as mais sutis são feitas com desejos. Esquisito o que vou dizer: a alma é uma biblioteca. Nela se encontram as estórias que amamos Romeu e Julieta, Abelardo e Heloisa, O paciente Inglês, As Pontes de Madison, A Menina e o Pássaro Encantado. As estórias que amamos revelam a forma do nosso desejo. Delas escolhemos uma, é a nossa gaiola. Gaiola na mão, saímos pela vida à procura do nosso Pássaro. Quando imaginamos havê-lo encontrado, uh, que felicidade! Ficará feliz em nossa gaiola. Será o amante da nossa estória de amor: eu prá você, você prá mim. . . Nós colocamos lá dentro e pedimos que nos cante canções de amor.

Acontece que o Pássaro também tinha a sua estória. E era outra. Todo Pássaro deseja voar. Ele bate suas asas contra as grades, suas penas perdem as cores e o seu canto se transforma em choro. E, de repente, ele se transforma. Não mais o reconhecemos, é um outro. Essa é a razão por que a dor da paixão satisfeita é muito maior.

Reflexão do Alex Castro sobre o medo de perder a companheira em um modelo não-monogâmico

Post do facebook: https://www.facebook.com/AlexCastroEscritor/posts/599323163459429

— “alex, você não tem medo de perder sua companheira?”

às vezes, quando falo de relações abertas e poliamor, me fazem essa pergunta.

e respondo que sim. claro. muito. eu me pélo de medo. todo dia. todo santo dia. todo.

mas e daí? qual seria a solução?

se tivéssemos uma relação monogâmica ao invés de aberta, o risco de perdê-la seria o mesmo.

se fôssemos casados ao invés de solteiros, o risco de perdê-la seria o mesmo.

se morássemos juntos ao invés de em casas separadas, o risco de perdê-la seria o mesmo.

se ela estivesse presa a mim por um contrato assinado em cartório, por promessas feitas na empolgação do flerte e por todas as convenções românticas da nossa sociedade, ainda assim o risco de perdê-la seria o mesmo.

quase todos os relacionamentos que conheço prendiam seus cônjuges um ao outro com todas as falsas algemas acima… e quase todos acabaram.

pior ainda, muitos dos que não acabaram (teoricamente, os que deram certo!) deveriam ter acabado. as falsas algemas serviram não para garantir a felicidade do casal mas para prender um corpo morto a outro, dois quase estranhos hoje unidos apenas pelo cheiro de carne podre.

então, sim, tenho medo de perder minha companheira.

mas tenho ainda mais medo de eu me perder dela e ela se perder de mim, e continuarmos juntos… só porque assinamos um papel, só porque temos um filho, só porque moramos no mesmo apartamento e não temos para onde ir.

nenhum grande amor merece virar um triste arremedo de si mesmo.

é natural que tudo acabe. nosso grande amor vai acabar, depois nossas vidas, depois nossas línguas, nossos países, nosso planeta, até nosso sol.

é natural que tenhamos medo dessa entropia que, minuto a minuto, nos consome e também consome tudo o que conhecemos e que, finalmente, vai apagar todas as estrelas uma a uma.

o que não é natural é nos escravizarmos, nos acorrentarmos, nos enlouquecermos uns aos outros para fugir do medo & da entropia, da morte & do fim.

então, sim, tenho medo de perder minha companheira.

mas isso não muda nada.

Geração smartphone

Parece que nossa geração escolheu deixar de viver por completo o que acontece à frente do próprio nariz para viver atrás de uma tela de celular.

Queremos manter contato com várias pessoas virtualmente e deixamos de viver relações profundas no presente com pessoas que estão logo ali à nossa frente.

Queremos saber o que acontece no mundo, não resistindo às notificações que pipocam nos celulares, e mal sabemos o que acontece ali onde estamos.

Queremos registrar os momentos pelos quais estamos passando, seja com fotos ou filmagens, e para isso algumas vezes deixamos de vivê-los por completo, apenas pensando em qual rede social compartilhar e com quem, e quais as melhores paisagens e poses. Queremos em algum momento lembrar desses momentos que nem estivemos tão presentes.